Esta entrevista foi gravada e disponibilizada em nosso podcast. Se preferir ouvi-la, clique aqui para acessar a página deste episódio do Sproutly Podcast.

Cleusa Sumodjo é coordenadora na Escola Pueri Domus há mais de quinze anos. É formada em Letras pela PUC de Minas Gerais, fez cursos em desenvolvimento de currículo para Early Childhood Education em 2002 na UCLA, em Los Angeles. Também fez psicopedagogia e Curso de Neurociências e Infância – Visão Integrada da Primeira Infância e Educação Infantil. Tivemos o privilégio de trabalhar com Cleusa e estamos muito felizes pois ela vai compartilhar conosco um pouco da sua experiência com um programa bilíngue em escola brasileira.

Sproutly – Cleusa, gostaríamos que você começasse falando um pouco sobre as principais características de um programa bilíngue no Brasil. O que uma escola precisa ter para ser considerada bilíngue?

Cleusa – Eu diria que há uma grande variedade de “programas bilíngues” no Brasil e, portanto, não dá para colocá-los sob uma mesma categoria, ou classificação. Há escolas que oferecem um período de aula um pouco mais longo, com um diferencial em aulas de Inglês diárias, com carga horária variada. Há escolas que oferecem um período estendido com atividades lúdicas em Inglês. Há ainda escolas de Educação Infantil exclusivamente em Inglês e há escolas que oferecem os dois currículos, o brasileiro e o americano, em período integral. É necessário atentarmos para o conceito de uma escola bilíngue. Uma escola bilíngue se organiza, em todos os níveis, para desenvolver em seus alunos as competências necessárias para usar duas ou mais línguas em situações acadêmicas e sociais. Por isso, ensina por meio das línguas, e não apenas as línguas, sendo essa a principal diferença em relação a escolas de idiomas. Para isto, deve se organizar de forma diferente da escola brasileira em aspectos como carga horária ( as escolas brasileiras devem obedecer as determinações da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, além de determinações do MEC. Para dar conta de acrescentar conteúdos curriculares em uma segunda língua as escolas precisam ampliar a carga horária); ambiente, já que as escolas bilíngues trazem a língua para a vida, o ambiente deve ser rico em recursos visuais na segunda língua; metodologia, através da participação efetiva do aluno, uma vez que consideramos que o bilíngue “funciona” em outra língua; perfil do professores: além da formação adequada, devem apresentar o perfil de quem faz efetivo uso da língua academicamente e socialmente.

Sproutly – Pela sua experiência, qual é a melhor maneira de se introduzir um segundo idioma?

Cleusa – No ambiente familiar isto se dá de forma natural. O aspecto fundamental para que haja uma aprendizagem efetiva em qualquer área é a relevância, o engajamento das crianças em situações que façam sentido para elas. Se estivermos tratando de crianças muito pequenas, elas ainda não têm consciência do que é aprender, portanto não faz sentido um planejamento para ensinar palavras em outra língua. É necessário planejar uma rotina com atividades como qualquer outra escola que trabalha na língua mãe. A diferença é que o veículo de comunicação será uma outra língua. O fundamental é a clareza da intenção. O professor precisa planejar de forma minuciosa, de maneira que no decorrer das experiências, o uso da língua seja efetivo. Vale também ressaltar que o professor deve usar a língua de maneira que atinja os objetivos de aquisição da língua durante o desenvolvimento da experiência da qual a criança está participando.Em caso de crianças maiores, continua sendo fundamental envolver os alunos em atividades e experiências que façam sentido para eles, que lhes permitam utilizar efetivamente a língua, mas a diferença em relação aos menores é que em faixa etária mais avançada, o professor irá trabalhar a sistematização da estrutura linguística. Em resumo, a melhor maneira é planejar experiências pedagógicas que façam sentido para crianças, e criar oportunidades para o aluno fazer uso da língua o tempo inteiro.

Sproutly – E qual a melhor forma de manter o segundo idioma na rotina das crianças na sala de aula bilíngue?

Cleusa – Também aqui varia conforme a idade. Sabemos que quando as crianças começam num programa bilíngue, passarão por diferentes fases e a primeira delas é o “silent períod”. É importante que o professor recorra a diferentes recursos para manter o clima ou criar o clima da segunda língua na classe. Eu costumo dizer que o professor precisa inundar a sala de aula com recursos áudio-visuais na outra língua, precisa propiciar as mais variadas experiências para que o aluno possa interagir na outra língua de maneira que ele seja envolvido o tempo todo numa dinâmica que lhe desperte o interesse e lhe dê prazer.

Sproutly – Como trabalha a equipe pedagógica em uma escola bilíngue? Quais são as principais diferenças das instituições tradicionais quanto à formação e prática dos profissionais?

Cleusa – É pré-requisito fundamental que o profissional da escola bilíngue não só tenha aprendido um idioma, mas que tenha vivido neste idioma, uma vez que temos que desenvolver as competências na segunda língua em situações acadêmicas e sociais. Eu costumo dizer que a pessoa tem que funcionar na segunda língua. Não basta ter estudado a estrutura da língua, mas também não basta ser fluente ou até ser “native speaker”, porque é necessário ter formação como educador. A grande diferença entre nós e uma escola de ensino regular na língua mãe é que temos que contar com uma equipe que tenha desenvolvido, além da competência técnica e uma boa formação como profissional da educação, experiência de vida na segunda língua, e que compreenda o conceito de bilinguismo para ser capaz de desenvolver estratégias para o trabalho de aquisição de língua. Já na escola regular, a formação é focada no aspecto da formação como educador e no aspecto técnico, isto é, ligado à área de atuação.

Sproutly – E qual é o papel da coordenação de um currículo bilíngue? Em que se diferencia de uma coordenação de escola tradicional?

Cleusa – Acho que parte desta pergunta está implícita na anterior, porém há aspectos importantes a serem considerados pela coordenação num currículo bilíngue. A educação bilíngue “formal” no Brasil ainda está engatinhando. Há diferentes modelos de Dual Language Instruction, auto denominadas “escolas bilíngues”. Portanto em primeiro lugar, cabe ao coordenador estudar com seus professores para que fique claro o conceito de bilinguismo, o modelo de Dual Language Instruction adotado pela escola e a base teórica que norteia o programa para então planejar as práticas pedagógicas. Isto significa ter claro: quem somos, o que fazemos, por que fazemos e como fazemos. É necessário também promover estudos com a equipe, para compreender o trabalho a ser feito com esta criança que está envolvida em outras culturas, outras experiências e mais, funcionando em outra língua. É preciso estudar publicações sobre “como funciona o cérebro do bilíngue”, pois isto possibilita maior clareza na preparação das práticas pedagógicas para o desenvolvimento da aquisição da língua. Deve se considerar que esta criança está também trabalhando em outro currículo em sua língua mãe, portanto, ela está sendo exposta a outras práticas e conteúdos acadêmicos. Vale lembrar o que Jim Cummins fala: a criança não tem que aprender a mesma coisa duas vezes, daí temos uma grande desafio: desenvolver uma integração com os profissionais que trabalham com a criança no outro currículo, para que as habilidades desenvolvidas numa língua sejam transferidas para a outra, isto é, da língua mãe para a segunda língua ou vice versa.Posto isto, o professor não pode ver o aluno como uma folha de papel limpa em que ele será o único a escrever nela. Já haverá muitas coisas escritas neste papel: o que fazer para aproveitar o que já está escrito para enriquecer o que será escrito? Este é um grande desafio para nós, educadores numa escola bilíngue. Trabalhar com estes quatro aspectos é um grande desafio da coordenação.
E dois grandes investimentos para que isto ocorra são: criar um “sense of team work” e desenvolver um clima de estudo no grupo. Como eu disse no início, a cultura da educação bilíngue no Brasil ainda está por ser construída, daí a importância do comprometimento do grupo com o estudo e estabelecer isto é função da coordenadora. A minha intenção era que trazendo os aspectos fundamentais para um trabalho numa escola bilíngue, ficasse claro o que a diferencia de uma escola de ensino regular na língua mãe.

Sproutly – Que conselhos você daria aos pais que estão pensando em matricular seus filhos em uma escola bilíngue?

Cleusa – Esta seria uma pergunta mais difícil de responder se fosse feita 15 anos atrás. Hoje, visto que não há mais distâncias e que vivemos num mundo globalizado, não é necessário mais convencer os sobre a importância de oferecer uma educação global, significando também em outros idiomas. Costumo dizer que isso deve ser um projeto de vida, precisa ter valor para a família. Quando digo isto, não significa que a família tem que mudar a sua língua de comunicação com a criança. Ao contrário, quanto melhor a criança se desenvolver em sua língua mãe, mais habilidades ela terá desenvolvido para serem transferidas para a segunda língua. É necessário controlar a ansiedade, pois é comum os pais desejarem ver o progresso da criança na segunda língua e para isto começam a solicitar que a criança fale com eles ou para eles. Isto pode inibir a criança. Normalmente a criança não quer falar com os pais ou na
frente deles inicialmente. É preciso considerar o caráter afetivo da língua mãe. Se a criança cresceu falando determinada língua com a família, é normal que ela não se sinta confortável sendo solicitada a substituir a “língua do coração” por outra. Respeite isto. E ainda há que considerar que a criança passa um tempo considerável no “silent period”. Isto gera ansiedade nos pais e um sentimento de que o filho não está aprendendo. Tenham paciência. Chegará um
momento que a criança falará com espontaneidade.

Sproutly – E que dicas você daria a quem tem filhos que estudam em uma escola bilíngue? Como fazer um acompanhamento eficiente do que acontece em sala de aula e otimizar o processo de aprendizagem na segunda língua?

Cleusa – Algumas dicas simples e corriqueiras são: procure acompanhar incentivando, interessando-se pelo que a criança está fazendo, pelo que ela traz para fazer em casa, dando reforço positivo, ampliando os recursos nesta língua em casa. Convide-a para colocar etiquetas em objetos de seu quarto ou da casa, (como incentivo e não como cobrança). Promova outras experiências na segunda língua, principalmente se a língua que está sendo trabalhada não for usada de maneira generalizada no país onde a criança está. Propicie o contato e envolvimento da criança com a língua usando diferentes recursos e em diferentes situações. Por exemplo, vídeos, filmes, leituras, músicas, jogos, brincadeiras etc. Por fim: Apoie e valorize, mas, como eu costumo dizer: no pressure.

Sproutly – Muito obrigada por compartilhar tantas informações valiosas conosco. Foi um prazer conversar com você.

Cleusa – Leticia e Nina, muito obrigada pela oportunidade de participar com vocês deste momento tão agradável conversando sobre algo que é tão significativo para nós, não é mesmo? Vou continuar acompanhando vocês e aprendendo com o Sproutly.

By |2018-11-23T13:15:46+00:00maio 3rd, 2016|Fundamentos, Orientações|2 Comments

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2 Comments

  1. Edileine lima 4 de maio de 2016 em 17:30 - Responder

    Adorei a entrevista! Estou indicando a leitura para colegas professoras. Conheço Cleusa e admiro seu trabalho. Sucesso para vcs.

    • Nina Stocco 4 de maio de 2016 em 22:45 - Responder

      Olá Edilene,
      Obrigada por deixar o seu comentário!
      Continue acompanhando e compartilhando as novidades do Sproutly!
      Um abraço,
      Nina e Letícia

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